Onde vivem os negros de Curitiba? 👨🏿‍

Ainda não recebe O Expressso?

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Hoje é dia de mais uma valiosa contribuição da Adriana Baggio, semioticista e colunista d’O Expresso – que, com o mapa de Curitiba em mãos e a história da cidade na cabeça, fez uma reflexão sobre a presença negra na cidade:

Domingo, manhã de sol, 2020 a.P. (antes da pandemia). A praça João Cândido, no Alto São Francisco, animada com bandinha de rock, jogos para crianças e aulas de yoga. Armei minha cadeira de praia na altura do recém-reformado Belvedere. Havia casais, famílias, grupos de amigos. Mas sabe o que não havia? Pessoas negras. 

👨🏿‍ Onde estavam os negros de Curitiba, se foi justamente no Alto São Francisco que eles moraram, se organizaram, rezaram e festejaram? 

Parte da resposta pode ser encontrada no mapa abaixo: a comunidade que uma vez ocupou a região central da cidade vive hoje em suas margens geográficas.

O centro de Curitiba, historicamente ocupado por africanos e afrodescendentes, concentra hoje a menor proporção de negros e pardos na cidade. Veja o mapa completo aqui.

🔢 Quase 20% da população curitibana é negra, segundo o último censo, de 2010. Mas a distribuição é bem distinta entre os bairros.

  • No Batel, Hugo Lange, Jardim Social, Bigorrilho, Alto da XV e Juvevê, menos de 5% dos moradores se autodeclaram pretos ou pardos.
  • Já em São Miguel, Campo de Santana, Tatuquara e Ganchinho, eles passam dos 30%. No Prado Velho, são 40%.

Mas já foi diferente: 40% era a população negra no planalto curitibano em 1854. Quem nos mostra isso — e também as estratégias de branqueamento da cidade de lá para cá — é o volume Dos traços aos trajetos: a Curitiba negra entre os séculos XIX e XX, organizado por Brenda dos Santos, Geslline Braga e Larissa Brum e publicado como Boletim da Casa Romário Martins.

  • 👉 O estudo mostra como a legislação de costumes e de edificações atuou para afastar a população negra do centro, área tradicionalmente ocupada por africanos e afrodescendentes, escravizados e libertos. 

🏰 O Palácio Belvedere é um exemplo. O edifício foi construído sobre os alicerces da Sociedade 28 de Setembro, fundada em 1895 e formada majoritariamente por mulheres negras. O nome é uma homenagem à data de promulgação da Lei do Ventre Livre, de 1871. A área havia sido doada à instituição pela Prefeitura, mas em 1915 foi desapropriada para a construção do Belvedere.

A poucos metros dali, fica a sede da Sociedade 13 de Maio, construída (e ainda de pé) no início do século XX na rua Clotário Portugal. Próxima também era a Sociedade Beneficente Protetora dos Operários, fundada em 1883 em frente à praça João Cândido, com numerosos associados negros.

❗ Estes clubes e sociedades foram cruciais para o movimento abolicionista e, depois, para promover a sociabilidade, a inserção social e as condições de vida dos recém-libertos. 

As ruas, as edificações e as sociabilidades que tanto apreciamos no São Francisco são legado da população negra de Curitiba. Alijada de seu espaço original, ela constitui hoje apenas 9% dos moradores do bairro.

  • Do prédio da Sociedade Beneficente dos Operários, aliás, restava apenas a fachada, e agora nem isso: puseram tudo abaixo para dar lugar a um novo equipamento público. Haverá nele alguma referência às origens étnicas e de classe da antiga construção? 🤔

🤿 Para ir mais a fundo:

Uma forma inicial de desfazer esse apagamento é conhecer o que está por baixo da reescritura – por exemplo, percorrendo a Linha Preta, roteiro que destaca as marcas da negritude curitibana. Quem quiser se aprofundar pode também consultar trabalhos como o já citado Dos traços aos trajetos e o livro Para além da placa: outras histórias da negritude em Curitiba.

Quer receber mais noticias sobre raízes de Curitiba?

Outras notas