A gente vive falando aqui n’O Expresso sobre os desafios de caminhar em Curitiba. E, na semana que sucede o Dia Internacional da Mulher, resolvemos abordar o tema sob outro viés: é mais difícil para uma mulher caminhar sozinha pela cidade?
A resposta, infelizmente, parece ser que sim: uma pesquisa divulgada pelo Instituto Sivis nos últimos dias mostra que 73% das mulheres curitibanas têm medo de andar sozinhas pelas ruas, principalmente à noite.
🚹 Em contraste: apenas 11,7% dos homens da cidade disseram sentir o mesmo.
“Isso ultrapassa uma questão de bairro ou de [índices de] criminalidade. É trágico pensar que, por ser mulher, a gente é mais vulnerável”, disse a pesquisadora Thaíse Kemer, do Instituto Sivis, à CBN Curitiba.
✍ Depoimento: na hora, a gente lembrou da história da jornalista curitibana Magaléa Mazziotti, de 40 anos, que há quatro adotou os pés como seu principal meio de transporte. Eram caminhadas diárias de 40 minutos, uma hora, até duas horas.
Infelizmente, ela passou por algumas situações de violência e, desde o ano passado, quando começou a trabalhar em casa, reduziu o ritmo das pernadas — mas continua a defender o pé como modal. Leia abaixo um trecho do depoimento dela:
O meu antídoto contra o medo de ter nos próprios pés o meu principal modal sempre foi o exercício do direito de ir e vir. Considero um ultraje não poder fazer algo tão natural quanto caminhar porque você pode sofrer uma violência — e, de fato, isso ocorre e aconteceu algumas vezes comigo.
Na época, minha reação foi intensificar a minha decisão. Quanto mais pessoas aderirem a isso, mais seguro fica o ambiente para todos.
Entre 2016 e 2018, elevei radicalmente a militância por ir a pé em qualquer lugar. Não havia limite de horário. Podia ser dia, noite ou madrugada. Meu limite era até duas horas de caminhada para chegar ao compromisso. São múltiplos os benefícios de ter uma rotina em que a caminhada é o seu modal: eu vivia feliz e autoconfiante. Não é por acaso que diversas religiões valorizam a peregrinação como instrumento de transformação.
- Ela também deu algumas dicas de segurança: saiba exatamente qual o seu limite, inclusive no sentido de administrar uma abordagem de assalto. A repetição torna a pessoa mais atenta aos pontos em que alguém pode surgir, como caçambas e muretas de prédios. Outra dica valiosa: procure caminhar na direção contrária a da rua em que se está. Por duas vezes, motos invadiram a calçada onde eu caminhava, para arrancar minha bolsa e para me derrubarem com o objetivo de revirar a minha mochila de trabalho. Aliás, quem adere à caminhada como modal precisa entender que celular deve ficar escondido na bolsa. Do contrário, a pessoa vira alvo.
🗣 E você, leitora? Também caminha a pé por Curitiba? Já se sentiu alvo nas ruas apenas por ser mulher? Saiba que não está sozinha — e que, juntas, somos mais fortes.